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INTERAÇÃO REAL ENTRE ARTISTA E PÚBLICO GUIA O CONCEITO E O CONTEÚDO
DE “CONECTAR”, SEGUNDO ÁLBUM DO CANTOR E COMPOSITOR WEM

 

Postado no Youtube em setembro do ano passado e compartilhado nas redes sociais do artista no mesmo dia, um vídeo caseiro, desses gravados com celular, chamava a geral: “Aqui quem está falando é o Wem e nesse exato segundo eu começo o projeto do meu novo disco. Gostaria de convidar você para participar desde já de tudo isso comigo”.

Àquela altura, “Conectar”, o álbum que você tem agora nas mãos, ainda não tinha esse nome e seu autor, o cantor e compositor paulista Wem, o chamava provisoriamente de “Disco Novo”. Ainda que a interatividade tenha movido o projeto desde o início, como o tom do chamado confirma, também não estava racionalizado o eixo conceitual que amarraria tudo e que logo ficaria claro: o desejo profundo de conexão, com o outro e consigo mesmo.

O que existia até ali? Um pouco mais de 20 canções, escritas por Wem – sozinho ou com os parceiros Chico Salem e Amanda Basani – desde o lançamento do primeiro álbum, “Começo” (2014). E a proposta era que o público escolhesse suas dez prediletas a partir de novos vídeos caseiros, também feitos com celular, que as apresentavam no formato simples e cru do voz e violão. As postagens aconteciam às segundas e quintas-feiras, no Youtube, Facebook e redes sociais. E os avisos iam por e-mail aos interessados inscritos pelo site de Wem.

Todos os vídeos foram gravados na intimidade cotidiana do cantor, no sofá da sala, no chão do quarto da filha pequena, na cama de casal, no jardim, no estúdio caseiro. Em cada um, além de apresentar a composição ao público, Wem fazia comentários sobre como ela foi feita, quem eram os parceiros, quais as motivações, as inspirações para a criação da letra.

O número de interessados foi crescendo a cada nova postagem e rapidamente seu mailing ultrapassou os 2.600 inscritos. Toda semana, portanto, Wem postava dois vídeos e enviava mais de 5.200 e-mails para os novos fãs. Recebia as respostas diretamente em sua caixa de entrada: “adorei essa aqui”, “use cordas naquela”, “essa me lembra o cantor tal” etc.

Mas houve também quem preferisse se comunicar na caixa de comentários dos próprios vídeos – e essas conversas podem ser vistas até hoje, já que todos eles continuam disponíveis no Youtube. A lista de comentários recebeu desde sugestões para títulos das canções até dicas técnicas de harmonia, como o feito pelo músico Paulo Tatit, do Palavra Cantada, para a canção “Lola”: “Linda! Música de pai aPaixonado! Um comentário técnico: não ficaria melhor, na primeira parte, resolver sempre em F#m ao invés de ir pro A?”. Tudo foi levado em consideração.

Postadas todas as músicas, mandados os milhares de e-mails, contabilizadas as listas de prediletas do público, Wem fechou o repertório de “Conectar”. Onze músicas. Chegou então a hora de levantar a grana da produção. Atrás do caminho mais coerente com a interatividade da proposta, o artista inscreveu o projeto no site de financiamento coletivo Catarse pedindo o que precisava para “promover, fabricar, distribuir o CD e filmar os clipes”. O bom é que já tinha nas mãos os e-mails de quem mais poderia apoiá-lo nessa hora: os mesmos 2.600 novos amigos-fãs que ajudaram a escolher o repertório. Usou o mailing para divulgar a página do projeto no Catarse. E, claro, alcançou a meta – melhor ainda, com 8% de sobra.

Sob a produção de Fábio Pinczowski e Wem, “Conectar” foi gravado e mixado no Estúdio 12 Dólares, em São Paulo, na semana anterior ao Carnaval deste ano. Nesses cinco dias, foram gravadas todas as bases, tomando o cuidado de capturar as primeiras ideias de cada músico, em busca de preservar o caráter intuitivo do som. Em contraponto a “Começo”, seu rebuscado primeiro trabalho, Wem criou uma sonoridade minimalista para o novo álbum. Também cuidou para que ele soasse um “disco de banda”, com os mesmos músicos em quase todas as faixas.

Fábio Pinczowski tocou as guitarras. Guilherme Kastrup assumiu a bateria. Ricardo Prado, o baixo, os pianos, os teclados e a sanfona. Além de cantar, Wem trouxe para o álbum seu violão – o mesmo que havia apresentado tão bem as canções para o público nos vídeos demo. E substituiu o excesso de instrumentos por uma cama de coros, criados com as vozes das cantoras Lu Lopes, Marina Pittier e do cantor Fê Stok. Dadi Carvalho (produção, piano e baixo) e Bruno Buarque (bateria) participam da faixa “Se Eu Te Encontrar”, que abre o disco. Amigo de outros tempos, Marcelo Jeneci canta e toca piano e sintetizador em “Antes”.

Wem vive em São Paulo há 12 anos. Ele nasceu em Mogi-Mirim, cidade a 150 km da capital para onde se mudou nos tempos de faculdade, quando veio estudar Composição. Apesar do curso focar na música instrumental, tinha especial predileção pela canção popular. Foi o que o aproximou dos projetos infantis Tiquequê e Palavra Cantada, em que também atua. Agora, tem se dedicado também a escrever os roteiros, produção e direção de clipes. Há muito trabalho a ser feito, já que pretende criar um vídeo para cada canção de “Conectar”.

A seguir, é o próprio Wem quem fala sobre a história de cada uma dessas canções. Quase sempre banhado pelo que ganhou no processo de feitura do disco: uma real conexão com o público que quer atingir. Ou melhor: com o público que quer ser atingido por ele. Os nomes que Wem cita no faixa-a-faixa a seguir são de alguns representantes desse público. Podem até ser nomes desconhecidos no mundo da música, mas são parte fundamental da viagem musical proposta por Wem e tiveram suas ideias impressas no álbum.

 

“Se Eu te Encontrar” (Wem/ Chico Salem)

Essa foi a primeira música que lancei no projeto de seleção. Chegaram muitas ideias musicais e algumas pessoas, como o Gu Siqueira e o Paulo Lorenzetti, sugeriram arranjos de cordas. A Ana Paula fez declaração de amor com parte da letra. O Hudson, de Vitória (ES), foi além: pegou violino, escaleta e sugeriu um arranjo tocado por ele com vídeo e tudo.

 

“Conectar” (Wem/ Amanda Basani)

A letra evidencia o desafio de se conectar com quem está ali, na vida real. E faz um convite para deixar um pouco de lado a dispersão virtual. Muita gente me escreveu, dizendo que se sentia representado. E o Thiago Rosa fez um arranjo de trompete esperto, que me lembrou uma trilha de desenho animado. A ideia acabou não sendo usada, mas foi ela que me sugeriu uma intenção mais pop, com um arranjo mais alto astral para essa música! O mais legal é que ele gravou e me mandou.

 

“Nosso Quarto” (Wem/Amanda Basani)

Na conexão do estúdio, todos têm que estar totalmente sintonizados. Essa música foi a única que teve uma pequena interferência. Explico. Gravamos as bases do disco em uma semana e essa seria a última música. Só que era sexta de Carnaval. A gente já estava em outro clima e a base foi para um lado totalmente rítmico, que, ouvindo na quarta-feira de cinzas, tinha mais um clima pré-carnavalesco do que uma atmosfera íntima do quarto. Com os ânimos mais estáveis, a gente voltou para o estúdio e refez o arranjo. Mesmo o disco privilegiando as primeiras ideias, as vezes é bom dar uma segunda chance.

 

“Antes” (Wem)

A ideia da letra veio da Amanda, minha mulher. Ela saiu com nossa filha para colher flor na rua de casa. Moro no Butantã e, apesar de não ser abundante, sempre tem uma florzinha ou outra. E nesse passeio ela teve a ideia da letra. Aqui tem uma quebra no disco. A densidade ganha força pelo minimalismo. Em vez da banda e dos coros, a canção se sustenta apenas no piano do Jeneci e na gente dividindo a interpretação.

 

“Ela” (Wem)

Levei para o estúdio a ideia que recebi por e-mail do Wagner. Ele me escreveu dizendo que o arranjo dessa música deveria ir para um caminho mais libertário, contundente, rock n’roll, sem perder o gingado para reforçar a letra, que fala dessa mulher contemporânea que se reinventa, que cabe em todos os rótulos e por isso mesmo em nenhum.

 

“Máquina Humana” (Wem)

No meio desse processo, de todas as conexões que estavam sendo feitas, e dessa ideia do tempo da máquina x tempo do homem, do real x virtual, lendo os e-mails e mensagens, me veio a ideia do nosso corpo como máquina. Do “Cérebro Eletrônico”, do Gilberto Gil. Quis falar desse corpo como máquina poderosa. E, no disco, queria que o arranjo fosse um punk falsificado, com violão de nylon, uma coisa meio pirata. Conseguimos achar isso na gravação. Toda vez que ouço, rola aquele sorrisinho interno acompanhando uma batidinha de pé ou mão.

 

“Solidão Jamais” (Wem)

Postei o vídeo dessa música e pedi para as pessoas mandarem sugestões para o título. Foram enviados ao todo 64 títulos diferentes. A partir daí, escolhi dois que eu achava que tinham mais a ver e fiz uma votação. No final, o título da música ficou esse, “Solidão Jamais”, que resume bem a letra e na hora que esta frase aparece na música é um momento marcante da melodia. O que me chamou atenção é que recebi muitos títulos que para mim não faziam o menor sentido. E caiu mais uma vez a ficha de que as músicas têm vida própria e as pessoas se relacionam com elas segundo suas próprias histórias de vida.

 

“Lola” (Wem)

Nessa música, o Paulo Tatit, da Palavra Cantada e do grupo Rumo, sugeriu que eu retirasse um acorde na primeira parte e isso fez muita diferença. A música ganhou dramaticidade. O legal é que, mesmo a gente trabalhando junto, e nos encontrando quase que semanalmente, ele acompanhou todo o processo e opinou na internet.

 

“O Amor te Pegou” (Wem)

Sou fã incondicional do álbum “Tábua de Esmeralda” (1974), do Jorge Ben. Fiz uma canção em homenagem a ele, que fez parte do processo de seleção desse disco. Ela acabou ficando de fora, mas a música “O Amor te Pegou”, no final, é a verdadeira “musicomenagem” para esse mestre absoluto. Quem disse isso não foi eu, e sim o Daniel, o Paulo e a Carol, que acompanharam a seleção e escreveram esse argumentando na votação por que essa música deveria entrar no disco.

 

“Acalma” (Wem)

Recebi um e-mail da Malu dizendo que, para ela, essa música tinha o ar do Little Joy. Isso foi genial! Amo essa banda e fazia um tempão que não a? escutava. Fui lá ouvir e me apaixonei de novo por tudo aquilo. No final, foi o disco que me acompanhou durante o processo de gravação. E, por influência total dele, esse trabalho tem coro em todas as músicas. E nessa aqui, em especial, na repetição rola três vozes abertas cantando a letra. Little Joy total!

 

“Um Amor Natural” (Wem)

A ideia dessa música veio a partir do comentário da Andreia Sarab. Ela comentou isso na canção “Conectar”: “Música perfeita para os dias de hoje. Não tem nada melhor que falar ilimitado pessoalmente, amar ilimitado! Parabéns. Grata por mais este presente!”. E eu gostei muito dessa ideia de usar essa palavra – “ilimitado” – no contexto real/ afetivo/ amoroso. Principalmente porque hoje ela é usada quase que exclusivamente para campanhas de celular e conexão à internet. Como algumas músicas no disco põe luz ao real x virtual, a ideia caiu como uma luva!